Pesquisar
Close this search box.

Conexões de Delcy Rodríguez com setor petroleiro são cálculo para sucessão na Venezuela

Por G1

No final de outubro, a então vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, foi até o Catar participar de reuniões com enviados da Casa Branca. Segundo fontes que acompanham de perto a política venezuelana, naquele momento foram feitas sondagens a Delcy por parte dos emissários de Donald Trump sobre a possibilidade de que ela assumisse o comando do governo por um período — não determinado naquele momento, nem hoje — de transição após a saída de Maduro do poder e do país. A resposta à sondagem é um mistério, mas tudo o que aconteceu nos últimos dias está alinhado com o que Trump queria havia algum tempo.

Acordo com a Chevron

Aos 57 anos, Delcy é não apenas uma das mulheres fortes do chavismo, como a pessoa que Maduro determinou que cuidaria de temas sensíveis em seu governo, entre eles a administração da pandemia de Covid-19 e a abertura do setor petroleiro a empresas estrangeiras. A partir de 2024, Delcy acumulou a Vice-Presidência com o comando do Ministério dos Hidrocarbonetos. Foi ela quem, em 2025, negociou o último contrato selado entre a Venezuela e a companhia petroleira Chevron.

Com ou sem sondagem prévia ao ataque, a realidade é que Delcy representa uma alternativa viável para Trump, sobretudo na matéria que mais interessa ao republicano: acesso ao petróleo . Em Caracas, fontes falam em “acordo circunstancial para buscar a estabilidade do país”, entre Trump e a presidente interina; outros em “uma aliança temporária utilitária”. Delcy foi aceita pela Casa Branca por suas conexões no setor petroleiro nacional e internacional. Quanto vai durar este entendimento ou aliança dependerá de um delicado equilíbrio entre os interesses de Trump, as pressões internas e a dinâmica dentro do chavismo. Em palavras de uma fonte diplomática brasileira, “a situação ficará no fio da navalha”.

Internamente, Delcy dividirá o poder com os dois homens mais importantes dentro do regime: o ministro da Defesa, general Vladimir Padrino López, e o ministro do Interior e Justiça, o ex-militar Diosdado Cabello.

Se a presidente interina tem o desafio de controlar a relação com os EUA e com seus companheiros chavistas, Padrino López continuará à frente dos quartéis, função que exerce desde 2014, e Cabello chefiando as principais forças de segurança do país. Os três devem manter a coesão no chavismo para sobreviver. Ontem, o ministro da Defesa voltou a respaldar a presidente interina e a denunciar o ataque dos EUA a seu país. No entanto, longe de defender qualquer tipo de reação armada, o general pediu calma e tranquilidade. Padrino López fez provocações leves aos EUA, em nome contribuir com o plano dos três de manter o chavismo no poder.

Negociadora dura

Longe do perfil que traçaram jornais americanos recentemente, Delcy não é uma chavista moderada. Essa caracterização pareceu parte de uma estratégia do establishment americano interessado em negociar com o chavismo — ou seja, na manutenção do regime. Diplomatas brasileiros que já negociaram declarações sobre a Venezuela com a presidente encarregada asseguram que “Delcy é dura, e briga pelo que quer”.

Há alguns anos, a mulher forte do chavismo foi a encarregada de receber um alto diplomata americano que queria conversar com Maduro. Seu pedido só foi aceito depois de obter o aval da agora presidente interina. “Ela quis me conhecer, conversamos mais de uma hora e, finalmente, ela deu o OK”, contou o diplomata.

Hoje, assumirá a nova Assembleia Nacional, com 30 novos deputados da oposição que convivem com o regime. Paralelamente, o Conselho de Segurança da ONU discutirá, a pedido da Colômbia, o ataque dos EUA à Venezuela. Em tudo o que acontecer a partir de agora, será necessário observar como o governo venezuelano concilia relações e demandas variadas e, em muitos casos, opostas.