Ricardo Nunes (MDB), 56, foi reeleito prefeito de São Paulo neste domingo (27), que registrou recorde histórico de abstenção (31,54%). No cargo desde a morte de Bruno Covas (PSDB), em 2021, o emedebista se valeu de obras, articulação política e Tarcísio de Freitas (Republicanos) para vencer com folga Guilherme Boulos (PSOL), 42, no segundo turno.
O prefeito obteve 59,35% dos votos válidos (3,39 milhões) e o deputado federal, 40,65% (2,32 milhões) — índice de votos nulos foi de 6,75% (431 mil) e o de brancos, 3,67% (234 mil). O resultado final é similar ao de 2020, quando Covas (1980-2021) conquistou 59,38% dos votos, e Boulos, 40,62%.
Em discurso após a vitória, Nunes agradeceu a Tarcísio, que foi ovacionado ao chegar ao comitê de campanha do prefeito, na zona sul da cidade, e só citou Jair Bolsonaro (PL) ao mencionar o vice, coronel Mello Araújo (PL), 53, indicado pelo ex-presidente. “Agradeço ao líder maior sem o qual esta vitória não seria possível, o meu amigo que me deu a mão na hora mais difícil”, afirmou, ao lado do governador e de Gilberto Kassab, presidente do PSD.
Boulos, que acompanhou a eleição na Casa Portugal, na região central, agradeceu à sua vice, Marta Suplicy (PT), e aos eleitores que votaram nele.
“A gente perdeu uma eleição, mas nesta campanha a gente recuperou a dignidade da esquerda brasileira.”
Nunes vence em 54 das 57 zonas eleitorais
O prefeito avançou no mapa da cidade em comparação com Covas há quatro anos —em 2020, venceu o tucano havia vencido em 51 zonas eleitorais (São Paulo tinha uma zona a mais).
Neste ano, Nunes liderou também em zonas eleitorais em que Boulos e Marçal tinham vencido no primeiro turno, como os extremos da zona leste e a zona norte. O psolista só ganhou em três zonas eleitorais de São Paulo: Bela Vista (centro) e Valo Velho e Piraporinha (zonas eleitorais vizinhas na zona sul).
De desconhecido a reeleito
Em fevereiro de 2023, mais de 60% dos paulistanos não sabiam dizer o nome do prefeito paulistano. Diante desse desafio, Nunes fez os primeiros acenos aos eleitores, como a adoção de tarifa zero para ônibus aos domingos e obras como a requalificação da avenida Santo Amaro. Até agosto de 2023, o Datafolha ainda apontava Boulos à frente nas pesquisas. Mas, no papel de incumbente, Nunes virou o jogo. Cerca de 100 mil pessoas foram impactadas por mais de 70 obras de combates a enchentes realizadas nos últimos quatro anos, por exemplo.
Além disso, a prefeitura está com mais dinheiro do que nunca e terá R$ 119 bilhões à disposição para gastos em 2025. Pesou também o medo do eleitorem relação à mudança representada por Boulos e a própria rejeição ao candidato de esquerda.
Com 12 partidos, a coligação de Nunes garantiu a ele o maior tempo na propaganda de TV e o apoio de mais de 500 dos quase mil candidatos a vereador. Os dois fatores foram importantes, assim como a articulação do prefeito para ser o nome de Bolsonaro (PL) em São Paulo. Nunes acreditava na “união do centro e da direita para vencer a extrema esquerda”.
O aval demorou, mas veio — embora o ex-presidente tenha dito que o prefeito não era seu “candidato dos sonhos” e tenha participado pouco da campanha. Já com Tarcísio, se deu o contrário. O governador pretendia “se envolver o mínimo possível” na disputa, mas usou seus 55% de aprovação na capital para pedir votos, ir atrás do eleitorado evangélico e até preparar Nunes para debates, garantindo um aliado de peso para 2026.
Neste domingo, Tarcísio afirmou, sem apresentar provas, que integrantes da facção criminosa PCC orientaram familiares e apoiadores a votar em Boulos para prefeito de São Paulo — o psolista chamou a declaração de “vergonha” e o Ministério Público disse que os serviços de inteligência do governo federal não receberam nenhuma informação a respeito de uma suposta orientação da facção.
A vitória de Nunes não o eximiu de se ver envolvido em sufocos ao longo da disputa. Em março, o UOL revelou indícios de corrupção em mais de 200 contratos de obras emergenciais. Com o início dos debates em agosto, o prefeito penou para explicar a piora dos indicadores de alfabetização, seu suposto envolvimento em um esquema de desvio de recursos de creches, a formação de uma milícia na GCM e um boletim de ocorrência de 2011, registrado pela sua esposa Regina por violência doméstica.
No primeiro turno, o último episódio foi explorado por adversários, como Pablo Marçal (PRTB), com quem Nunes brigou pelos votos da direita. No auge da tensão, os dois discutiram antes de um debate em que um assessor de Marçal deu um soco no marqueteiro do prefeito. No fim, o empresário ficou em terceiro e tentou formalizar o apoio a Nunes no segundo turno, sem sucesso.
A segunda etapa das eleições começou com clima de “já ganhou” na campanha de Nunes e Boulos partindo para o ataque para tentar reverter o resultado. A primeira pesquisa Datafolha no segundo turno mostrava Nunes com 55%, Boulos com 33%.
Nem mesmo o apagão provocado pela queda de árvores na cidade ofuscou sua campanha vitoriosa. Em 11 de outubro, uma tempestade deixou milhões de paulistanos sem luz e acirrou a disputa. Nunes foi cobrado pela falta de poda e de preparo da cidade para as mudanças climáticas, entre outros problemas. Seis dias depois, a situação ainda não havia sido totalmente resolvida e Nunes cancelou de última hora a participação em um dos debates para participar de uma reunião com Tarcísio. Coube ao governador assumir a dianteira da gestão da crise, mobilizando órgãos e tirando o prefeito-candidato do foco dos holofotes.
Mesmo com as cobranças de Boulos sobre as falhas do prefeito, a liderança de Nunes nas pesquisas não esteve ameaçada em nenhum momento. Com apoio de 36 dos 55 vereadores eleitos e problemas como a concessão da Enel para resolver, seu segundo mandato pode ter reajuste das passagens de ônibus, que estão congeladas há quatro anos e novos desdobramentos para questões como a “cracolândia”. Nunes terá mais tempo para cumprir promessas que não foram entregues no primeiro mandato, como os corredores de ônibus nas avenidas Aricanduva e Radial Leste e os 12 Centros Educacionais Unificados.